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A revista TUPINAMBAH no COMBATE ROCK

“A revista Tupi Nambah, com textos, desenhos, imagens, quadrinhos e roteiros de autoria de Carlos Lopes, é um sopro de criatividade e resistência em um momento grave da vida político-econômico-social deste Brasil infeliz dominado pelas trevas, pelo retrocesso e pela irrelevância em todos os sentidos. A crítica política e social é ácida e contundente, com forte viés de protesto e de esquerda, passando por uma verdadeira aula de história e de sociologia enfocando a vida brasileira a partir da Segunda Guerra Mundial. A obra cometida por Lopes é de uma importância crucial para entender o momento em que vivemos, sem retoques ou eufemismos.”
Marcelo Moreira, jornalista do Combate Rock.

https://combaterock.blogosfera.uol.com.br/2019/01/25/carlos-lopes-e-a-tupi-nambah-sao-as-vozes-roqueiras-contra-o-atraso/?fbclid=IwAR2WgaBoCnYO_XNHNQb_Y2WaElynoZ8marL8MF9dN5agkjSQkYbPSmx3w3c

Daniel Cardona do MÓDULO 1000

Entrevista conduzida por Carlos Lopes / Fotografias de Marcelo Pereira.

(Observação: esta entrevista foi realizada em 2006 na residência de Daniel Cardona, o guitarrista do Módulo 1000 no Rio de Janeiro. Em 2015 soube do seu falecimento.  Ao resgatar esta entrevista, presto uma homenagem ao artista e ao mesmo tempo, luto para que a memória nacional não se perca.)

Daniel Cardona Romani é um sujeito sentimental. Além de ser colecionista e professor de guitarra, é amigo de pequenos animais. E flamenguista fanático. Daniel foi o fundador da banda carioca Módulo 1000, que em 1971, gravou o primeiro disco de rock pesado brasileiro, o “Não Fale com Paredes”, trabalho esse que carrega consigo toda uma lenda, que só vem aumentando através das décadas (fora a capa tripla!). A boa nova é que Cardona ou o Módulo, ou o Módulo-Cardona preparam um novo álbum chamado “The Four Walls”. De cara, Daniel contou uma história que somatiza o próprio rock, que nasce e renasce das cinzas a cada momento:

– Fui dar uma aula de guitarra para um executivo, que estava triste. Por quê?, perguntei. Ele disse que um amigo tinha falecido. Quando ele falou o nome, eu gelei: Bené Nacif Gomes foi o primeiro baixista com quem eu toquei! Éramos dois meninos quando começamos e nunca mais nos vimos. E imagine, recebi a notícia do passamento dessa forma tão estranha. Por isso sempre digo: deixem a gente se divertir enquanto é tempo, se eu estou gravando um disco novo do Módulo, se a Bolha está voltando, o que importa é que estamos fazendo isso agora, enquanto estamos aqui. É melhor fazer alguma coisa do que não fazer nada!

(Obs: por absoluta falta de espaço, essa entrevista está absolutamente resumida. E as histórias que ficaram de fora, absolutamente saborosas, merecem o merecido destaque em algum novo local no tempo e espaço)

A Descoberta

– Comecei a tocar guitarra porque meu pai tocava violão, Daniel relembra, mas era só samba, canções do Francisco Alves, Chico Viola, achava legal, mas eu não tinha muita vivência com aquilo. Quando descobri o programa “Hoje é Dia de Rock” do Jair de Taumaturgo, com um rádio ruim que não tinha antena, escutei Bill Halley, Cliff Richards, Elvis Presley, Neil Sedaka, aí eu achei que isso era o barato! Eu gostava muito de Little Richard. Nós não tínhamos imagens, não tínhamos como ver nada! As primeiras revistinhas importadas que começaram a chegar aqui, a Sixteen e a Teenset, ali você via os Monkees, os Beatles, o Dave Clark 5, os Hollies etc. Parece ridículo, mas só agora em 2006 eu fui ver imagens do Peter Gabriel (Genesis) com aquela cabeça meio de polígono vermelha! Eu gosto dessas coisas, sempre gostei.

Você tinha como diferenciar banda genuína da fabricada?

– Não tinha como, não havia esse sentimento crítico. O som sim, tocava alto. Tanto é que eu gostava das baladas de Paul Anka como “Diana”! Mas eu sempre gostei de associar visual com música, a questão da estética de palco. Engraçado… Você fazer coisa sem referência. Foi com essa intenção que o Módulo 1000 fez o show “Aberto Para Obras”: o cara entrava, subia uma escada que não tinha como descer, e tinha que pular no chão, tendo à frente uma cerca de arame farpado. Como ultrapassar aquilo para a cadeira? O irmão do Jorge Amídem sentava numa privada e ficava imóvel com o violão na mão. Depois de 2 horas ele levantava e quebrava o instrumento na privada. Na platéia, além dos espectadores, havia manequins sentados. Tinha artistas pintando quadros. A mulher do nosso empresário Marinaldo Guimarães, agora viúva, a Miriam fazia pipoca no fogão. A gente tocava em cima e o Terço em baixo, mas as pessoas ficavam de frente. Lembro que o Terço, com Sérgio Hinds e Vinícius Cantuária, tocava uma música dos Byrds: “Do You Want To Be a Rock and Roll Star”, com um som bem limpo, o Jorge Amídem não usava distorção. Para o público ver o Terço tinha que se virar, era uma coisa incômoda, uma coisa de maluco. O Marinaldo, que fazia a produção, dizia que estava fazendo “novas proposições estéticas de um mundo podre”. Eu pegava um casaco de peles da minha mãe, colocava uns chifres de minotauro e as luzes projetavam minha sombra no lado de dentro do palco. O negócio era tão louco que eu quis soltar umas galinhas em um evento em São Paulo.

Dança do Limão

– Nessa época fomos contratados para tocar no desfile de manequins da Rhodia. Só deu problema. No final da apresentação puxamos um cacho de bananas para atirar na platéia vip. Nunca mais tocamos na Rhodia, é claro. Depois fomos contratados para tocar num navio: “Cruzeiro Turístico ao Norte” que ia até Manaus, vimos o rio Amazonas, a divisão da água marrom com a negra… tudo no embalo do V Festival Internacional da Canção por volta de 71/72 (nota: na verdade 1970). Os caras viram o galo cantar e não sabiam aonde. Contrataram a gente porque tínhamos tirado o 7º lugar com “Cafusa”, acho que era o sétimo, sou ruim de data… Os caras chamaram a banda errada. Quando a gente abriu o set na boate com “Whole Lotta Love” do Led Zeppelin, só deixaram a gente tocar 15 minutos! O cara veio falando: “Pára! Pára! Pára! Vamos conversar! Aqui a gente faz a dança do limão”, ele disse, “as pessoas dançam equilibrando o limão na testa, olhos nos olhos, quase se beijando! Essa música que vocês tocam não é propícia!” Para ninguém sair prejudicado, propuseram que continuássemos a viagem, usufruindo como passageiros, piscina todo dia, sorvete com garçom, biscoitinho, um monte de gatinhas, pois tinha um colégio de meninas com as freiras sempre do nosso lado, e se desse sopa mesmo, não tinha problema, né? Enfim, uma coisa de maluco. Também tinha um cara maluco, um negociante de carros importados de São Paulo, Habib Nader, o cara tava sempre doido, o olho injetado, vermelho, com um copo de uísque na mão. Ele chegava na beira da piscina e dizia: “Boa tarde para todos os passageiros desse Cruzeiro” e se jogava na piscina de terno! Ele subiu no mastro, foi chamado pelo comandante: “O senhor apareceu no radar aqui!” E ele respondia: “E eu estava bonito?”

Entre Cuba e o Vaticano

– Entendo que o julgamento sobre acertos e erros é individual. Só nós sabemos o quanto nos custa o sucesso e o fracasso, as decisões corretas ou não. Daniel, o que deu errado com as bandas brasileiras dos anos 70?

– Eu acho que nada deu errado com as bandas, pois elas se propunham a fazer o trabalho. Elas se reuniam, e pelo que eu saiba, ninguém tinha aquele negócio: “Nós temos que ganhar uma grana!” O pessoal fazia porque havia um “espírito no ar”. Eu podia estar totalmente deslocado, mas eu vivia aquilo como uma grande novela! Aquilo era uma viagem! A gente acordava todo dia, tomava o banho, comia e ia ensaiar na sala do Marinaldo, todos os dias, de 6 a 8 horas! Depois dos presets, dos arranjos acordados, era a hora da improvisação, o grande lance. “Vamos tocar qualquer coisa, cada um faz o que quer”. Era tipo uma jam que não tinha tempo, compasso ou tonalidade. E gravávamos em um gravador de rolo, muitas e muitas fitas que não sei onde estão. A gente selecionava uma coisa ou outra, “Até que ficou legal esse espírito”, dizíamos. Mas música estruturada também é legal. Inclusive tem uns detratores, sempre tem. Quando o cara fala “tem que ser”, fudeu! Não é porque tem que ser! Ao nosso redor tinha poucas pessoas para promover o nosso trabalho, como intermediários. A gente foi tocar uma vez, em Brasília, e os agentes federais, de terno e óculos escuros, subiram no palco para desligar todo o equipamento. Pensei fudeu, não vou ligar mais ligar para a Tânia (a ex-esposa), o que eu fazia todos os dias, lá de uma jacuzzi na mesma suíte onde ficou o Guevara, o Paulo VI. Fomos convidados pelo Governo de Brasília para inaugurar a Concha Acústica. Levaram a gente preso e perguntaram: “Qual era a senha naquela música?” Eles se referiam a Turpe Est Sine Crine Caput. Eu disse: “Fato é fato. Como é horrível uma cabeça sem cabelos.” Os caras se entreolharam, viram o mico que eles pagaram. Por que a letra era só isso? A verdade é que nós não sabíamos fazer uma letra maior, uma letra decente (gargalhou)! Agora, pega algumas bandas da época, que eu não vou dizer quem é, e veja bem as letras: me diga se aquilo é uma obra-prima! É cheio de abobrinha ali (com ênfase)!

– Exatamente esse é um dos pontos mais fracos do rock brasileiro dos 70 que deu errado. Quem deu certo? Raul Seixas, Mutantes (com Rita Lee), Secos e Molhados e Novos Baianos. Todos tinham ótimas letras!

– Mas você não acha que nesses 4 que você citou, havia uma vantagem econômica? Os Mutantes já vieram com um respaldo financeiro grande…

– Compreendo, mas isso não denigre a qualidade…

– Era uma facilidade, pelo menos na minha época, para levar um trabalho adiante, ter bons instrumentos. As lojas não tinham. O titio militar de alguém, o tio bacharel, a tia advogada era quem trazia de fora. Nêgo fazia o logo da Ludwig com material de chaveiro e colava na bateria na hora de registrar. Viajavam com uma Pinguim ou uma Caramuru ridícula para voltar com uma boa. E muita gente boa fez isso. Com um bom instrumento você aparecia mais. Os clubes não tinham P.A.s para amplificar nada.

– E como vocês faziam?

– A gente juntava em série um monte de cabeças (amplificadores valvulados), 50 watts, 100 watts, 200 watts. Por volta de 1967 era tudo Tremendão ou Super Tremendão. Eram 4, 5 cabeças ligadas em umas 5 caixas de cada lado. A revista Guitar Player vinha com os esquemáticos para construir wah-wah, o que você quisesse, mas também ensinava como construir os cabinets, as caixas na especificação Marshall e tal. Eram caixas com 4 alto-falantes de 12 polegadas e outras com 2 de 15”. A gente mixava tudo. Em Brasília foram 20 e poucas caixas porque foi a gente, a Bolha, o Terço… E foi um inferno total.

Escalando as Paredes

– Por que vocês não conseguiram gravar o segundo e o terceiro discos?

– Na verdade, não devíamos ter feito nem o primeiro! Eram protótipos e não músicas completas. Aí pintou o Ademir (famoso DJ parceiro do Big Boy) com uma proposta da Top Tape para produzir o que quisesse. “Vocês não querem fazer um disco?”, ele perguntou, mas tem que ser agora. A gente argumentou que tinha acabado de chegar o sintetizador do Luís Paulo, que estávamos ensaiando “Lages Cadaverínas”, “Nua” e “Sete Quartos”. Acabamos aceitando, gravando o que tínhamos de mais velho. Queríamos gravar o novo material com o órgão Farfisa, não mais com o cocô do Eletrocord (que tinha 12 válvulas pequenas para amplificador de guitarra). O técnico de gravação reclamou porque eu coloquei o amplificador de guitarra no banheiro. “Quero virar a fita, quero fazer o backwards tape”, eu expliquei a ele que o Hendrix tinha feito isso. Ta lá: “Animália” tem isso.

Estávamos em São Paulo em 69, de saco cheio de tocar músicas dos outros. O Luiz Paulo (tecladista, ex-Agora 4, uma banda de Bossa Nova) sugeriu que fizéssemos algo com características de bandas que gostávamos, misturando nossas influências com algo mais brasileiro. Aí eu fiz ele escutar Emerson, Lake and Palmer; Rick Wakeman e John Lord. Para o Eduardo (Leal, baixo), o da “Nossa Canção” do Roberto Carlos, eu disse “deixa disso!”, vem escutar Led Zeppelin. E o Candinho (baterista), que era jazzista, descobriu que no rock progressivo e no hard tinha bons bateristas. Ele e Paulo César Wilcox, que tocava vibrafone muito bem, viviam dizendo que “o negócio é jazz, rock é só três acordes”, mas eles não entendiam que rock não era só body music, só para dançar e bater os pés, mas podia ser mind music também.

Dificuldades

Desde minhas primeiras bandas: Os Escorpiões, Sindicato do Crime, Os Quem – por incrível que pareça – feitas com o Armando, um vizinho de rua, o problema da grana sempre existiu. A gente ia à noite em casa de demolição para pegar cobre e cano de chumbo para vender. Comprávamos madeira para fazer uma guitarra ridícula para vender para algum cara bem ignorante para fazer algum dinheiro! Até conseguir comprar uma Sonic da Gianinni! A gente ia tocando em troca de cachorro quente, coca-cola e mais 5 cruzados ou 5 alguma coisa, mais a passagem para guardar! Aí comprava um instrumento um pouco melhor, era uma loucura! Amplificadores Ipame! Guitarras Brucutu! Baterias Caramuru! Uma coisa horrível!

– Escutando o “Não Fale Com Paredes”, cheguei à conclusão que o Candinho tocou candomblé nas faixas “Não Fale”, “Olho por Olho, Dente por Dente” e “Metrô Mental”. Todas essas faixas têm a mesma batida. Foi proposital ou será devido à alguma bagagem extra?

– Peraí, deixa eu pensar (confuso)… Vou te dizer sobre como eu vejo isso. Acho o Candinho um baterista diferente de qualquer baterista com quem já toquei ou vi tocar. Nem melhor ou pior, apenas diferente no approach. Em outros, como o Cantuária (do Terço) e o Gustavo (da Bolha), senti uma vivência rock, mas no Candinho, não. Os “viúvos”, mesmo que o antigo tenha sido um cocô, continuam preferindo o original, mesmo que a versão recente de “Não Fale” com um novo baterista tenha ficado melhor. Só não quero que a bateria atual fique inferior à versão original, diferente da guitarra, pois qualquer guitarrista pode tocar o que eu toquei no disco. Todo mundo tira em Lá # aquele riff de “Não Fale”, mas não está certo. No processo de gravação, prensaram o disco errado e subiu meio tom! Esse lance da batida que você sacou, tem a ver sim, porque um aluno meu disse que parecia Olodum (ri)! Mas eu não me lembro do Candinho ter tido alguma simpatia por isso, nem a família dele. O pai dele gostava é de saber o resultado do jogo do bicho!

– E sobre o período no qual o classic rock e o progressivo entraram no ostracismo no final dos anos 70, por causa do punk que passou a representar o novo rock, para público e imprensa, afinal os tempos eram outros. O que você pode dizer sobre essa fase?

– Cara, isso me irrita um pouco. Acho que tem espaço para tudo, mas eu não gosto de punk. Detesto todo tipo de punk! Os caras que não conseguiam fazer mais do que 5 acordes podem falar o quê? O pessoal do punk tava muito preocupado em reclamar, mas não apresentava solução! Hoje tu tens 17 anos, mas aos 60 tu vais tocar “Hey Ho Let´s Go?”. O que você apresenta, o que você trás junto contigo? Só se você tiver papai para dar uma herança, igual o Supla que pode fazer o punk dele de cabelo em pé, porque tem muito dinheiro. Eu acho que o estudo é para ser seguido na odontologia, na arquitetura, na medicina e também na música! Como eu falei para o produtor desse meu novo CD: “Eu não posso fazer a mesma coisa dos 70, eu não faço maravilha, sou um guitarrista limitado, não tenho técnica.”

– Você gravou o “Não Fale” com um fuzz? Da marca tone bender?

– Não foi o tone bender, não…

– O big muff?

– Talvez o big muff com o amplificador Super Tremendão que tinha uma faixa vermelha e preta, um rubro negro maravilhoso! (ri)

– Quatro canais? Tinha que reduzir na hora, não?

– É. Foi uma loucura. Você canta aqui, você fica ali (demonstra)…

– Quanto tempo levou a gravação com mixagem?

– Talvez duas semanas. O Ademir (produtor) tinha um mês de estúdio, mas não chegamos a usar tudo, não.

– Hoje quando escuto o disco…

– Tudo abafado! Tudo grave! (gargalha)

– Também, mas a minha estória é que esse foi um dos primeiros discos que peguei no sebo quando estava começando a gostar de rock. Foi bem barato, mas eu achei o disco tão esquisito que troquei-o com mais alguns por um dos Scorpions, nem lembro…Passei na Galeria do Rock em São Paulo e vi o preço que vendem um original!

– Já vi comprarem por 1.200,00!

– E sobre você ter sido o primeiro brasileiro que gravou um disco de rock pesado? O que você acha disso?

– Isso nunca me passou pela cabeça! Eu compus a música “Não Fale Com Paredes”, que tem o mesmo espírito de “Metrô Mental”, com intervalos de quinta diminuta: o diabolos in musica! Essa cultura do rock pesado, o lado negro da cruz, a diminuta, talvez seja isso. Estava em São Paulo em 69 tocando na Catraca quando fiz essas músicas e o que eu escutava era Hendrix, mas você pode ver que não tem nada de Hendrix, nada de Ten Years After, nada de Zeppelin no disco! Eu não sei o que fiz, mas é o que conseguia fazer.

A Volta do Módulo Lunar

– Estou burilando as letras do meu CD solo, aparando as arestas, procurando as pessoas certas, são 10 no total, tive 2 bateristas! Cara, isso para mim é difícil. Sou um cara amoroso. Algumas pessoas sabem dos problemas de saúde que enfrento (começou a ficar emocionado), mas não quero falar sobre esse assunto… e foi muito difícil ter que abrir mão desses bateristas, porque apesar da pessoa ser legal, ele não se adequava ao trabalho… Eu tenho uma péssima reputação desde os tempos do Módulo de ser muito exigente. Diziam: “Ih! É o Daniel quem vai gravar? Então tem que trazer barraca, víveres, comida porque daqui ninguém sai hoje!” Mas eu gosto de experimentar os amplificadores, os captadores, testar o som. É uma coisa complicada. As músicas e as letras do novo CD “The Four Walls” é todo composto por mim, veja aqui (mostrando as tablaturas): “The Great Wall of China”; “The Sacred Mountains” que eu fiz para Itatiaia, sobre como eu conheci minha ex-esposa e sobre o final do nosso relacionamento – para mim, a melhor música que já escrevi. Vai ter um órgão de igreja e um solo de slide; “The Wailing Wall”, o muro das lamentações; “Real Friends” é para os amigos que estiveram comigo em todos os momentos; “Snake Eyes” é uma entidade feminina com olhos de cobra que transtorna os guerreiros. Quem pode personificá-la no encarte é a Fernandinha do Ashtar, que na verdade queria cantar a faixa, mas não dá pois foi escrita para o ponto de vista masculino, mas ela vai cantar algumas partes desde que não seja com falsete (ri); “Flying Higher” é um tema todo solado; “Heart of Stone”; “The Mind Wall” é uma suíte, o quarto muro, o muro da mente, o mais impenetrável; “Room of the Faceless” é a sala de espera de um médico, a sala dos sem face; “Clash of Forces” é o yin yang dos pensamentos; “The Thunder Rolls in the Distance” que é o inferno total, é a música apoteótica do disco: E5, B5, G5, C#5 e o tema rola em um clima meio Bolero de Ravel com várias vozes falando palavras em vários idiomas como “peace”, “love”, “fraternité”, ao som de bombas sendo despejadas, crianças queimando com bombas Napalm; “Bewitched” é um rock maio safado e quem cantar essa faixa é o John Lawton (Uriah Heep); “In The Eye of the Storm” é minha música favorita; “Bowing My Head” é uma música doce, com solo espiritual, é uma música dedicada a Deus. Eu acredito em Deus por tudo o que aconteceu e vai acontecer em minha vida, por isso eu curvo minha cabeça à vida, por tudo o que Ele escolheu para mim. Essa é primeira vez que eu falo isso, ninguém sabe.

GERSON KING COMBO

Durante a ditadura nos anos 70 e apesar de toda repressão, os jovens só queriam viver como jovens, curtir um som, vestir as roupas mais legais, ganhar a menina do baile. Esse processo ocorre com todas as classes sociais e não poderia ser diferente em nenhum outro lugar. As comunidades negras influenciadas pelo som do mestre James Brown deram início a um movimento que transformou o “I´m Black And I´m Proud” em uma versão nacional do orgulho negro. A música foi o veículo mais utilizado, bem mais do que a política. O movimento Black Rio teve entre seus expoentes um ex-dançarino chamado Rodrigues Cortes que após rodar muito teve a chance de registrar em seu primeiro LP solo em 1977 uma pérola chamada “Mandamentos Black” onde dizia que um black de verdade deveria “amar como ama um black”. A partir daí veio o sucesso, o carrão e as roupas vistosas mas tudo isso acabou em pouco tempo. Alijado do mercado, voltou à obscuridade. Muitos anos depois reapareceu do nada em uma participação na banda Clave de Soul na finada casa Ballroom no Rio em 14 de setembro de 1998. A partir daí o velho dançarino, hoje com 74 anos, (re)assumiu o seu nome de guerra favorito: Gerson King Combo.

Após trocarmos umas figurinhas, marcamos a entrevista na residência do King, que durou 4 horas. Ao final, o próprio Gerson me pediu para participar de um churrasco com os vizinhos. Respondi “Sem problemas”, visto que havia realizado uma das maiores e melhores entrevistas da minha carreira.

Obrigado Funk brother soul.

Quem é Gerson e onde nasceu?

Nasci em 30 de novembro de 1943 em Madureira, Rio de Janeiro na rua Andrade Figueira 394 onde está meu irmão Getulio Cortês (nota: autor de Negro Gato entre outras). Nossos antepassados eram mineiros, nós fomos os primeiros cariocas. Éramos 2 casais de filhos, uma irmã é falecida. O inicio de todo mundo você sabe como é: pobreza, beira de morro. Meu pai era policia militar, era loucura. Chegava o natal, cada um “vestia” um pé do sapato. Fomos crescendo, estudando sem sair de Madureira.

Você escutava muita música?

Muito, influencia do meu irmão que era um dos melhores dançarinos de rock. Você lembra como era o rock antigo? Piruetas, rodopios e eu era um exímio dançarino. Ganhava prêmios e prêmios.

Você participou de algum concurso em clubes?

Vários, eu e o “Imperial” (Carlos Imperial, ator, cineasta, apresentador e compositor). Aí começou o programa do Jair de Taumaturgo “Hoje é Dia de Rock” na rádio Mayrink Veiga. Eu trabalhava por ali e vi aquela turma passando, na época era muito topete. Todo sábado quando eu ia trabalhar, fechava por volta de uma hora justamente quando a turma estava indo para a rádio Tupi. Um dia eu os segui para ver onde eles estavam indo. Fiquei extasiado, já tinha conjuntos de mímica, uma loucura danada, ai eu pensei “O que é isso, eu sei dançar. Como é que se inscreve aqui pra vir dancar? Ah você tem que pegar um disco…”

Naquela tarde mesmo não entrei porque tinha que pagar ingresso e fiquei de voltar. No meio da semana eu voltei, cheguei lá comecei a ouvir uma musica, acho que era Little Richard… aí eu comecei a ensaiar. Fui lá no meio da semana e me inscrevi, me lembro que eu tirei terceiro lugar. Fiquei lá vendo e foi aí que eu vi o interior da coisa, o pessoal dançando no palco. Eu pensava que eu era o bom, mas não teve jeito: tinha uns quatro melhores do que eu, mas tinha uns bailarinos, nem lembro o nome deles, cara, que eram piores do que eu. Tirei em quarto ou quinto lugar. Eu não me dei por convencido, cheguei em Madureira e encontrei no Imperial Basquete Club na Estrada do Portela um amigo e perguntei pra ele: “Você conhece aquele programa? Que tal se a gente fizesse uma dupla?” Aí formou uma dupla, um trio…

Qual era o nome desse seu amigo?

Juscelino Braga, ele é baixista toca na noite. Começamos um movimento ali em Madureira. Que ninguém vinha pra cá, da zona norte tinha apenas uma turma de Marechal Hermes que vinha.

Isso era no começo dos anos 60?

1959/1960 por aí com certeza eu era bem menino.

Você conheceu o pessoal da Tijuca? Tinha noção do que estava sendo feito por lá, Tim, Erasmo?

Comecei a participar do programa na rádio Mayrink Veiga, um tempo depois mudou pra Tupi, mudou de novo para outra rádio e fui começando a levantar junto com essa turma. O astro daquela epoca era o Marcianita, Sérgio Murilo e não tinha nem Wanderléa. O que existia era os Snakes que era o Tim Maia e o Erasmo. O Roberto que não tinha vez aliás é o padrinho do meu filho.Começamos lá o movimento de “Hoje é Dia de Rock” que foi se alastrando para outros subúrbios. Madureira era um ponto critico entre a cidade e outros locais, Nova Iguaçu. Todo mundo saltava lá para ir para esses lugares e foi onde eu liderei porque eu morava quase do lado da estação de trem de Madureira.

As pessoas que saltavam falavam, (“Esse cara aí já foi na rádio”), então nós fomos juntando vários amigos, Guaraci, Eni, Jorge. Ali conheci Juscelino Braga que nunca me largou. E eu como exímio dançarino fui fazendo as coreografias. O conjunto se chamava primeiro Imperialista por causa do Imperial Basquete Club que era onde a gente ensaiava. Havia os The Drinks que eram os bebuns, a turma que estava começando a tomar Cuba Libre. As garotas eram escarças, eu estava me sobressaindo, eu era o mais moreno do grupo, eles eram meio durões, eram sambistas não eram do rock

Nessa época você tinha interesse pelo samba?

Não, eu nunca tive, por causa da influência do meu irmão que ouvia rock o dia inteiro eu fui crescendo ouvindo isso. Eu gostava do Império Serrano, sabe mas eu tinha um medo porque meu pai e minha mãe falavam “Não vai pra rua que tem uns crioulos do Império Serrano que pegam criança!” Aquilo me apavorava, então aquele negócio de samba pra mi era um tabu. Quando eu via aquele negão descendo de terno branco e chapéu panamá eu corria. Ficava com medo, era justamente o bicho-papão que minha mãe falava. Ai eu ouvia no rádio, a gente não tinha televisão. O bandido Zé da Ilha eu associava logo com o samba. Passava longe de Escola de Samba. E nessa coisa eu fui conhecendo uma turma por morar no centro de Madureira. Tinha os bicheiros, tinha o Natal, que era como um padrinho meu, ele comprou o primeiro time de futebol que eu joguei, eu era um exímio jogador de futebol. Para proteger os bicheiros, a gente gritava: “Sai, sai” quando a polícia vinha. A gente tinha que correr na frente dos policiais pra dar tempo dos caras guardarem tudo. E quem se destacasse na corrida era premiado.

Eu nunca deixei ninguém me passar, fiquei quase de titular, o Natal me dava cinco mil reis. Foi aí que começou o The Drinks, a primeira namorada, cinema, primeira traição também, cheguei lá estava agarrada com outro, foi aí que eu soube o que é ser corneado.

Ai fomos ganhando, ganhando, até que em 1962 ganhei o melhor individual. Meu irmão Getúlio ganhou um prêmio cantando em inglês. Juscelino já aprendendo o baixo. O “Hoje é Dia de Rock” já estava em decadência.

 

 “EU DESCOBRI O TONY TORNADO.”

Ganhamos o melhor conjunto. Eu vim no trem com quatro troféus. O melhor dançarino inclusive. Papei quase tudo até que fui proibido de disputar porque eu não tinha mais o que alcançar.

Com 17 anos fui me inscrever na pára-quedista e nesse interim comecou a aparecer Wanderléa, Rosemary, Kátia, Erasmo Carlos, Roberto. Nâo tinha Jerry nem Wanderley Cardoso. O Tim Maia não venceu muito porque ele era gordinho e muito feio e tinha uma discriminação de que negão tem que ser bom, ele era muito bom mas muito briguento. A primeira vez que ele foi na rádio Mayrink Veiga levaram a gente para a Boite Plaza, eu já comecei a trabalhar na noite, sem ganhar nada. O Roberto Carlos falava “Porra, tô trabalhando na boite Plaza”. Aquilo pra gente era o máximo.

Onde era a Boite Plaza?

Na Prado Júnior em Copacabana. Foi uma das primeiras. Já tinha o movimento Bossa Nova, mas era uma elite. Gente rica elitizada e quem gostava de rock era um infeliz. Se a gente tivesse esses cabelos de vocês naquela época seriamos discriminadíssimos: “Maluco, não tomam banho”. Então fiz a inscrição nos pára-quedistas, por causa de uma namorada. Como o meu irmão já estava nos pára-quedistas, eu tinha que ser o melhor. Fui lá e perguntaram: “Alguém quer ser pára-quedista?” Ai eu levantei o dedo, fui um dos únicos. Nesse primeiro dia, tinha um negro de quase dois metros que me viu e me conheceu da rádio Mayirink Veiga. Ai ele começou a brincar comigo: “Aí topete, eu não gostei, isso aqui é pra homem, topetinho”.

Ele ja era pára-quedista há muito tempo. Ele me encarnou ele brincava e eu sério. Esse negão se chama Antonio Vianna Gomes, eu o trouxe para tocar no The Drinks, mas ele era muito alto, um negão que acho que esticava o cabelo. O pessoal logo discriminou: “Pô negão, um crioulo só já basta, ele é muito alto e desengonçado.” E eu o trouxe para fazer a primeira inscrição, ensinei a primeira música…

Quando o Imperial ouviu (o apresentador Carlos Imperial tinha um programa na TV Continental) então eu fui pra lá com ele e o Carlos Imperial colocou o nome nele de Tony Cheker, posteriormente Tony Tornado. Ele nunca reconheceu que fomos nós que o trouxemos para a vida artística. Mas eu perdôo. A vida dele era sofrida aqui no Rio, o teto caiu na cabeca da mãe dele e ela acabou morrendo. Mas deixa isso pra lá…

Eu era muito solicitado, era eu junto com os aqueles artistas todos. O The Drinkers chegava e já era uma coqueluche. E fomos cantando em 1964. O Roberto gravou Splish-Splash, meu irmão Getulio junto também, tinha o Renato e seus Blue Caps.

Vocês eram um grupo musical?

Era só de mímica. Em 1962, conheci a minha esposa. Eu sou viúvo, ela é a mãe do meu filho, uma negra linda, a mais bonita que estava lá. Começamos a dançar juntos. Nós viajamos com o Zé Trindade, pelo Brasil inteiro fazendo mímica.

Como a dupla se chamava?

Gerson e Angélica, inclusive emendavam o nome, chamavam “Gersonangélica”, pensavam que era um só. Em 1964 fizemos um programa só nosso na TV Rio. O Carlos Imperial tinha vários dias e quarta-feira era só nosso. Sucesso! Às seis e meia da tarde. A gente fazia uns esquetes tudo dentro da mimica, mas às vezes eu nem sabia o que a música dizia. A música dizia Cry (chorar), eu estava rindo, às vezes dizia fly (voar) e eu nadando… (risos). Depois nós tivemos mais consciência. Foi quando pintou no Rio, a Jovem Guarda. Meu irmão Getúlio Cortes já estava com um sucesso: “Eu sou um negro gato de arrepiar” ele fez essa primeira musica e ficou todo empolgado “ vou gravar !” Ele era o carregador dos instrumentos do Renato Blue Caps, quando eu fazia mimica e coisa e tal.

1965 inagurou em SP o programa Jovem Guarda. O Carlos Manga era o produtor geral, o meu irmão coordenador. O Roberto Carlos sempre foi muito amigo nosso, íntimo particular desde daquele tempo. Ele convidou meu irmão pra fazer a coordenação geral do programa. Eu carregava os slides do programa. Tinha acabado de nascer meu filho. “O Gersão está duro lá” . Então comecei a fazer umas dublagens, a gente era muito bom, era programa atrás de programa. Tudo em São Paulo. O Rio tava uma decadência, tinha acabado o Jair de Taumaturgo em 63.

Voce morava em São Paulo?

Não eu só ia pra lá. Em 1965 a Jovem Guarda explodiu no Rio. Então reuniram-se eu, Carlos Manga, Roberto Carlos, o patrocinador. Eles falaram, meu irmão falou e eu fui o ultimo a falar. Sugeri o nome “tensão total” e o meu irmão sugeriu “alta tensão” para o programa. O Carlos Manga achou sensacional. Eu adoro o Carlos Manga, não posso nem contar a metade da vida do Manga, senão estamos os dois complicados.

Peguei motivos interplanetários, bailarinas. Essas meninas me ajudaram bastante mas eram duras, os maridões ficavam na porta querendo saber. Eu fiz a parte de coreografia. Tinha que ser limitada, porém graciosa. Deus me deu o dom de fazer graça, eu um negão grandão mas era leve ao mesmo tempo. Nesse mesmo interím tinha o Chacrinha saindo da TV Excelsior. Não existia chacrete ainda. Ele mandou o filho dele lá, nem me lembro qual e ele na ansia de me agradar disse: ““Meu pai quer falar contigo, leva essas meninas lá” O Roberto Carlos e o Manga nao deixaram, mas primeiro foram elas, que não podiam fazer dois programas. Foi quando ele (o Chacrinha) me convidou para fazer as primeiras Chacretes, elas me adoravam. Eu era o bendito fruto entre as mulheres.

SIMONAL, SUPREMES, STEVIE WONDER E JAMES BROWN.

Quando você gravou?

Gravei um compacto. A música se chamava “Não Volto Mais Aqui” de Getúlio Cortes em 1968 no estudio da CBS com quatro canais e fita de duas polegadas. No outro estúdio estava o Tim Maia, gravando, cheirando e fumando todas. Ele tinha chegado dos EUA e andava muito revoltado com esse país, sobretudo por causa do Golpe. Dali eu fui convidado pra fazer um show com o Wilson Simonal. Chamado de “Cabral a Simonal” foi sucesso no Brasil e no exterior. Não havia nada igual no Brasil. O Simonal começava o show e no meio a luz enfraquecia ele saía, e eu entrava a luz ia aumentado, e eu ia andando e imitando o Simonal, e depois entrava o Simonal com a mesma roupa cumprimentando o público. A luz ia aumentando em mim também e o público ficava louco achando que era truque, jogo de espelhos. Fomos para a Venezuela, foi a primeira vez que eu saí do pais. Com esse show viajei o mundo.

O time brasileiro foi usado para promover o governo militar e parece que o Simonal tinha envolvimento com o mesmo governo militar, dedurando os companheiros.

O Simonal me jurou mil vezes que não tinha nenhum envolvimento com os militares. O Simonal foi envolvido, tipo intriga. Eu fiz um showzinho com o Simonal na casa do Costa e Silva. Eu estou querendo defender o Simonal na verdade ele se achava mais do que ele era. Sabe eu aconselho, aos artistas para não se envolverem. Eu procurei não me envolver com política.

Esse show que você fazia com o Simonal foi até que ano?

De 1969 ate 1973, quando eu vim de lá pra começar o movimento Black Rio.

O Tim Maia nessa época já tinha estourado?

Tinha e tinha acabado. O Tim foi sucesso em 70. Nessa época ele começou a fazer as bagunças dele e até foi preso, ele bateu na mulher em 1975. Ele ficou 3 anos preso. Ele tinha muitos problemas.

Você já vestia roupas espalhafatosas?

Foi eu que trouxe essas roupas, e os cabelos crescidos. A gente via muito isso em Nova Iorque, aqui ainda não existia. Quando eu e o Simonal deixamos o cabelo crescer, a gente usava uns pentes de ferro. A gente estava em Los Angeles, fomos a um clube, o César Camargo Mariano entrou nesse clube que se chamava Square ou algo assim. Fiquei abismado com os negros de lá com uns carros muito feios, cor de rosa. Nós entramos nesse clube e fomos olhados de baixo acima, não haviam brancos e o César era branco. Fomos convidados a nos retirar. O Simonal já tinha ido a esse clube da outra vez que ele foi a L.A. Ele entrou lá querendo dar uma canja, e não deixaram. Nós fomos convidados a sair sem sutileza, a maior discriminação. Eles eram negros com muito preconceito e muito feios tambem.

Depois que voce chegou de viagem com o Wilson Simonal, em 1973, o que rolou?

Chegamos aqui, trouxemos uns discos, eu troquei uns discos com o Big Boy ele estava com um programa de muito sucesso na rádio Mundial. Ele me disse que estava com uma idéia: “Porque você não faz uma banda Gerson King Combo?” Nós fizemos o primeiro Baile da Pesada no Canecão em 1973.

Que tipo de pessoas iam no Baile?

Era o negro da Zona Sul, das comunidades Cruzada, Rocinha, Chapéu, muita gente de Botafogo. O baile era domingo à tarde. O Black veio resgatar os negão 15 anos depois. Nos começamos o baile da pesada e o Big Boy botava cada som, James Brown.

Esse público de 1973 já estava usando as roupas iguais as dos americanos?

Já estavam usando, não passava na TV, mas o jornalismo divulgava. A equipe de som era um toca discos e as caixas que traziam de casa. Em 74 o baile foi sucesso total, formavam-se filas e filas na porta do Canecão. Começamos a trazer atrações, começou a dança do negro. As festas eram feitas só com as caixinhas. Foi o Big Boy que começou com dois pratos junto com o know-how que eu trouxe dos EUA.

Por que isso aconteceu no Canecão na área mais rica da cidade e não no subúrbio? 

Por que no subúrbio era muito pobre, muito carente. O negro da Zona Sul já tinha uma graninha a mais. Já usavam aqueles sapatos altos. Nos bailes do Canecão nós fomos trazendo as equipes. Começou a ser criado o movimento no Rio de Janeiro. Foi crescendo daí.

Qual foi a primeira equipe do Rio? E quem a coordenava?

Foi a Soul Gran Prix e quem coordenava era o Dom Filó.

Tocava musica brasileira?

Não. Só música negra. O Filó (de filósofo) era um estudioso da cultura negra. Até tem livros publicados. Existia também a Black Power, só subúrbio. Quem mandava na Zona Sul éramos nós. Ai crescemos com a Furacão 2000, que já era sucesso, foi ele (Rômulo Costa) que criou essas caixas todas, ele era engenheiro. O movimento black foi crescendo, começou o sapato alto vermelho e preto, a cabeleira, eu andava na Rio Branco pra lá e pra cá com aquele cabelão, tirando fotos para promoção. As pessoas pensavam que eu era americano.

Quantos show você fazia? Era playback ou você levava os músicos?

A maioria dos shows eu levava a banda. No auge eu fazia dois, às vezes playback, ficava muito caro pra levar a banda. A produção não pagava pra sobrar mais dinheiro pra eles. As vezes eles não tinham o dinheiro e me pagavam com um carro. Já cheguei a ter oito carros aqui em casa.

Você se lembra quanto era o seu cachê, atualizado?

Uns três a quarto mil dólares por show. Eu tirava uns mil e oitocentos e o resto eu dividia entre a banda.

Você era o único artista brasileiro que se paramentava?

Sim eu era o único. Os blacks tambem se vestiam assim. Eu exportei pra São Paulo. Os blacks de lá vinham pra cá ver, investigar.

Você afirma que o movimento black paulista não existiria sem o carioca?

Positivamente, não existia em SP. A Chick Show uma rapaziada de lá fazia show, levavam artistas bons. Eu inaugurei o Black Sampa, uma cópia das equipes do Rio de Janeiro.

Qual era a média de público?

Dez mil em SP e no Rio de cinco a oito mil

Por que hoje em dia existem em torno de 300 bailes no Rio com uma media de três mil pessoas por baile nos fins de semana? De onde que surgiu esse publico?

Falta de opção, e outra geração. Hoje há mais facilidade. Naquela época as pessoas tinham menos dinheiro. E hoje há outras facilidades, mulher não paga, se chegar ate tal hora não paga ou paga menos.

E a violência?

A violência naquela época não existia. A gente separava as brigas, eu pulava no meio. Nem lá fora tinha briga. O único clube violento era o Bangu, em Rocha Miranda. Tinha mas muito pouco.

Você ouviu falar que algum movimento de esquerda naquela época dentro do movimento negro tipo os Panteras Negras?

Existiu sim. Era um pessoal de esquerda do PT, uma coisa paulista de sindicato. Era uma maneira deles tentarem se infiltrar na massa. Eles vinham com bandeiras, isso foi no final dos anos 70 mas não deu certo, ninguém queria saber de nada.

O período que você encontrou com as Supremes foi o período Simonal?

Foi durante esse período. Eu só sabia falar brother e baby. Conheci a negrada da banda do James Brown também. Foi no mesmo show das Supremes em Porto Rico que eu conheci o Brown.

O seu nome artistico já era King Combo?

Eu era Combo, Gerson Combo. King foi depois do disco, foi o James Brown que me chamou de King.

Onde você encontrou o Stevie Wonder?

Aqui no Brasil. Ele veio visitar a gravadora que lançava os discos dele aqui por volta de 72 por causa da inauguração de um estúdio.

Onde se localizava o estúdio?

Na Avenida Brasil. Eram oito canais e isso era muito para a época. O Stevie Wonder me chamava de Thunder Boy por causa do meu vozeirão, ele ficava me imitando. O Wonder chegou a enxergar!

 

“SOU O REI DO SOUL.”

Você tem um compacto simples gravado em 1966…

Esse compacto foi gravado na Avenida Rio Branco. A música é “É Quente” e “Centauros” do Getulio Cortes. O nome da gravadora é Equipe.

Depois deste compacto você gravou um LP chamado Gerson Combo Brazilian Soul em 1968. De onde veio esta palavra Combo?

De quando eu fiz o primeiro conjunto, o Fórmula 7, quando acabou a Jovem Guarda, eu, o Márcio Montarrôios, o Hélio Delmiro. A gente tocava aquele tipo de som com pistão (trompete). Eu era o crooner. Depois formei o Gerson Combo, que é uma palavra da língua Bantu que significa grupo de cinco ou mais pessoas. Vi Combo em um livro, minha vó falava bantu, ela contava que quando os escravos se reuniam para rezar se chamava Combo. Combo era a reunião para a magia do terreiro. Os meus bisavós eram escravos.

Me conta sobre esse Gerson Combo Brazilian Soul.

Eu já tinha mexido com soul. Só que a dança não existia, não tinha nada. 1967 teve a Turma da Pilantragem que imitava Chris Montez com músicas já conhecidas. Eles fizeram sucesso com “Primavera” do Cassiano. Eu já gravava soul, já cantava soul, um soul brasileiro. Eu era o único que cantava esse estilo. Quando disseram que o Tim Maia era o rei do soul, ai eu dei uma entrevista para o Jornal do Brasil dizendo que eu adorava ele mas ele não era o rei do soul, afinal fui eu que iniciei o soul aqui. Tanto é que o disco esta aí.

Houve alguma interpretação errônea em relação a faixa “Mandamentos Black” ?

Claro que houve mesmo eu cantando “a cor da pureza”. O crítico Tinhorão participava de uma mesa redonda no programa Aroldo de Andrade no rádio. Eu não entendia direito porque ele me acusava. Eu estava em Sao Paulo, me ligaram dizendo que meu filho estava chorando porque estavam falando no rádio que eu estava levando uma bandeira negra aqui nesse país e pessoas como eu deveriam ser crucificadas. Eu não entendi nada, por que têm que ser crucificadas? Eu fiquei muito magoado na época, o Tinhorão era meu amigo. Como não teve muito repercussão, foi tudo balela. Na verdade eu nem ouvi o programa.

Em São Paulo você notou que o movimento era de alguma forma diferente do carioca que por natureza é mais brincalhão?

Os negros paulistas levavam tudo a sério, não eram como os cariocas, lá já teve outra conotação. As equipes lá começaram a dizer que o negro pobre era “sub”. Eu fui lá realmente pra amenizar a situação. O Tornado foi lá, ele era o ídolo deles lá e eu era o idolo aqui. Ele falava a lingua deles lá porque queria se dar bem, foi preso lá inclusive. O Toni é inteligente mas é uma pessoa sem cultura.

Qual foi seu maior sucesso, entre todos?

Foi o primeiro LP, vendeu 200.000 copias, foi disco de ouro. Eu vendi muito um compacto quase 400.000 com uma musica de natal chamada “Jingle Black”.

Como era a União Black?

A União Black foi uma banda que eu criei, mas que não teve grande projeção

Como o movimento black acabou no Rio?

Com o advento da discoteque. A minha geração tinha crescido mas não engolia a discoteque, dançar bonitinho. As boites da Zona Sul só tocavam isso. Sobreviveu por uns cinco anos. Começou em 82 e o movimento definitivamente acabou em 1983. Acabaram-se os bailes, foram ficando fracos. Em 85 já não se falava mais. O Romulo da Furacão viajou muito pelo Brasil e resistiu. Depois disso veio o Rock in Rio, começou a fase do rock brasileiro.

Teus antigos empresários te enganavam? Eles estão bem hoje em dia, ou já saíram da cena?

Eles continuam. O Rômulo Costa também me explorou. Me dava uma merreca e eu ainda tinha que pagar a banda. Não havia essa estrutura de hoje.

O Tim Maia passou para posteridade como um artista popular, que a elite conhece, sabe quem é. O Gerson King Combo, não. O Gerson é um artista popular, das massas, que não passou pra posteridade. Por que isso? Você ficou muito preso a um movimento?

O Tim Maia foi pra Globo, eu fiquei preso ao movimento, às idéias, à coisa social. O Tim Maia fez um disco em 70 que ficou pra prosperidade. Eu não fiz esse disco. Se eu tivesse feito a metade das bagunças que o Tim Maia fez eu estaria mal.