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O MUNDO PóS-PANDEMIA

O retorno não tem sido fácil. É como reaprender a andar… de bicicleta. O pé escorrega.  Ninguém nas ruas e os ônibus lotados. E do meu quadrado vejo alguém tossir na cara de outro e o pau comer. Falso recomeço,  preocupante calmaria. Nem papeis de balas encontro pelo caminho.

Encontro alguém na rua que acredito ter conhecido antes da pandemia, mas não lembro quem é… Vizinha, jornaleiro, atendente… Ergo o braço robótico e aceno miseravelmente para manter as aparências do mundo que se foi. As máscaras literalmente caíram e não faço a mínima questão de revesti-las. Não me importo. Somos sobreviventes. O jogo é duro…

Arranco a máscara lavada e relavada e jogo bem longe. Respiro fundo. O vento me sacaneia e a traz de volta. Dou-lhe as costas. Que fique onde está.

O vírus veio para mudar o que já devia ter sido mudado há tempos. Mas o STF e Deus nada fizeram. Deixaram-nos à míngua entre frases feitas e malcriações. Desumanidades de 600 reais que seriam 200…

Volto rapidamente ao apartamento onde me sinto melhor, mesmo após mais de 3 meses trancado. Ainda guardo os gritos de desespero para mim.

A jovem fumadora de tabaco já não me acena da janela em frente. Agora que tudo parece ter voltado ao normal, ela deve ter preferido normalizar as relações e ocultar suas indiscrições.

Do mesmo quinto andar, ouço o vendedor de pamonha que como relógio suíço passa há anos na porta do prédio às 17:45.

Onde deixei a máscara…?

A Mangueira honrou a nação brasileira!

O carnaval não é uma festa que pertença a todos os brasileiros. Eu já acreditei nisso – ou fui induzido a – na mais tenra idade. Assim como acreditei que os telejornais e jornais só diziam a verdade – mas eu era criança. E quando criança estudei em colégios públicos – frutos da máxima de Anísio Teixeira de educação gratuita e de qualidade. Se era de extrema qualidade não posso afirmar, mas aprendi inglês e a ler partituras musicais nesses estabelecimentos. E aprendi a conviver com amigos de comunidades carentes. E por deixar que pessoas como eu tivessem alguma consciência social é que Teixeira acabou morto em um poço de elevador em circunstâncias para lá de misteriosas – assim como é um mistério o que tem acontecido com este país nos últimos meses.

Carnaval é a festa da carne, de desejos inconfessáveis, que desde o Império serviam para aliviar as mazelas da população. Período festivo em que negros e pobres paupérrimos vestiam-se de reis. Data em que o próprio Imperador fazia reverências a reis negros para que a farsa aliviasse a pressão social. Afinal não foi este país alcunhado de “ditabranda” por revista de circulação nacional e chamado de democracia racial por artífices da construção nacional?

Para manter-se o equilíbrio social, têm-se alimentado a prática nacional de não resolver as questões profundas e surfar na superficialidade. A mesma superficialidade que ainda afirma que os pilotis de Brasília são áreas de ampla convivência social como as praias cariocas não são subdivididas em classes.

Tupinambás (captura de tela)

Mas para pessoas como eu, “doente dos pés”, Carnaval também é um período de reflexão e imersão. Meu Carnaval não se faz a dançar nas ruas, mas no hábito de assistir aos desfiles pela TV – e de algumas vezes ter ido a ensaios em Escolas de Samba e à Marquês de Sapucaí no Rio para acompanhar a concentração das Escolas, ver os carros alegóricos e os seres humanos sob as fantasias. Quando adolescente eu só queria saber de rock and roll. O tempo me fez ver, mais do que crer, que rock não era apenas rebeldia à esquerda e samba à direita. Compreensão parcial da própria superficialidade que me cercava. Mas ao me libertar desses grilhões que antes me prendiam conheci um país sonhador mas doente, mestiço e racista, de glórias mil e grilhões centenários. E meu catecismo libertador teve seu apogeu nos grandes sambas enredos.

Em 2018, muitos encantaram-se com o samba “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?” da Paraíso da Tuiuti, mas uma coisa é deixar-se encantar, outra é compreender. Quem sabe se muitos desses encantados não preferiram o encantamento da mamadeira, da escola sem partido, da bíblia e das fake news em detrimento de sua própria essência?

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Assassinos!

A essência dos blocos carnavalescos é a crítica e todo governante teme as seqüelas. O popular desconstrói e destrói. E as Escolas de Samba, estejam ou não rendidas ao poder econômico, à censura das transmissões televisivas, ao corporativismo, nada disso mais importa quando a consciência precisa respirar o seu último ar de dignidade, nada disso mais importa quando o ar está carregado de indignidade. E em momentos farsescos como os que vivemos ameaças são dirigidas aos artistas, aos negros que não aceitam os grilhões, às comunidades carentes submetidas ao regime das balas dos traficantes e dos militares salvadores da Pátria, ameaças ditas nas entrelinhas.

Mas seja por qual motivo for, se por raiva ou pela falta de investimento no carnaval, eu já não quero mais saber, pelo menos a minha e a alma de milhões de brasileiros está lavada pelo Samba-Enredo “Histórias pra Ninar Gente Grande” da Mangueira de 2019.

Duque de Caxias o exterminador (captura de tela).

A melodia não me empolgou como ocorreu com a Tuiuti de 2018, mas tudo o que cerca a composição, sua letra, coreografia, dançarinos, carros alegóricos, a imagética, o momento, tudo somado me atiça o espírito revolucionário, e eu espectador passivo liberto o meu, o seu, o nosso Marighella ao ver a história oficial reduzida a anões (sem culpar os anões, é claro) e índios, negros e mulheres elevados a heróis.

RIO DE JANEIRO, RJ 04.03.2018 – Carnaval 2019 – Desfile da Mangueira. foto: Emiliano Capozoli

A cena do carro alegórico do monumento aos bandeirantes mergulhado em sangue (“O sangue retinto por trás do herói emoldurado” sobre o genocídio de mais de 300 mil índios pelos Bandeirantes) e o patrono do exército mostrado como um assassino sobre cadáveres talvez tenham sido as cenas mais fortes que já tive a honra de ver em um carnaval.

Mônica Benício, viúva de Marielle Franco.

Chorei ao ver Mônica Benício, a viúva de Marielle Franco desfilar altiva na Passarela, mulher guerreira, santificada pela dor, honrada como poucas e envolta por estandartes com o rosto de sua amada.

Um ano após ter sido executada por policiais, e sabe-se se por governantes no poder, Marielle é uma sombra incômoda ao poder estabelecido, uma cusparada na cara dos hipócritas, dos que sambaram ao enredo da Tuiuti e o negaram ao votar.

Ergam os punhos, desfraldem a bandeira.

“Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês.”

Obrigado, Mangueira!

Seja Marginal, Seja Herói!

A revista TUPINAMBAH no COMBATE ROCK

“A revista Tupi Nambah, com textos, desenhos, imagens, quadrinhos e roteiros de autoria de Carlos Lopes, é um sopro de criatividade e resistência em um momento grave da vida político-econômico-social deste Brasil infeliz dominado pelas trevas, pelo retrocesso e pela irrelevância em todos os sentidos. A crítica política e social é ácida e contundente, com forte viés de protesto e de esquerda, passando por uma verdadeira aula de história e de sociologia enfocando a vida brasileira a partir da Segunda Guerra Mundial. A obra cometida por Lopes é de uma importância crucial para entender o momento em que vivemos, sem retoques ou eufemismos.”
Marcelo Moreira, jornalista do Combate Rock.

https://combaterock.blogosfera.uol.com.br/2019/01/25/carlos-lopes-e-a-tupi-nambah-sao-as-vozes-roqueiras-contra-o-atraso/?fbclid=IwAR2WgaBoCnYO_XNHNQb_Y2WaElynoZ8marL8MF9dN5agkjSQkYbPSmx3w3c