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O MUNDO PóS-PANDEMIA

O retorno não tem sido fácil. É como reaprender a andar… de bicicleta. O pé escorrega.  Ninguém nas ruas e os ônibus lotados. E do meu quadrado vejo alguém tossir na cara de outro e o pau comer. Falso recomeço,  preocupante calmaria. Nem papeis de balas encontro pelo caminho.

Encontro alguém na rua que acredito ter conhecido antes da pandemia, mas não lembro quem é… Vizinha, jornaleiro, atendente… Ergo o braço robótico e aceno miseravelmente para manter as aparências do mundo que se foi. As máscaras literalmente caíram e não faço a mínima questão de revesti-las. Não me importo. Somos sobreviventes. O jogo é duro…

Arranco a máscara lavada e relavada e jogo bem longe. Respiro fundo. O vento me sacaneia e a traz de volta. Dou-lhe as costas. Que fique onde está.

O vírus veio para mudar o que já devia ter sido mudado há tempos. Mas o STF e Deus nada fizeram. Deixaram-nos à míngua entre frases feitas e malcriações. Desumanidades de 600 reais que seriam 200…

Volto rapidamente ao apartamento onde me sinto melhor, mesmo após mais de 3 meses trancado. Ainda guardo os gritos de desespero para mim.

A jovem fumadora de tabaco já não me acena da janela em frente. Agora que tudo parece ter voltado ao normal, ela deve ter preferido normalizar as relações e ocultar suas indiscrições.

Do mesmo quinto andar, ouço o vendedor de pamonha que como relógio suíço passa há anos na porta do prédio às 17:45.

Onde deixei a máscara…?

O DITADOR FRANKENSTEIN de Julio Shimamoto e COM A PALAVRA de Márcio Jr. (Editora MMARTE)

Analisar uma expressão artística, qualquer uma, tanto atende à paixões e gostos – muitos impostos -, como a pré-definições aceitas, retorno de mercado – e crítica (e trâmites acadêmicos). Os quadrinhos assemelham-se de muitas formas ao cinema, não da forma aceita ou disseminada pela academia, mas para este que vos escreve, através do conceito de quanto mais brasileiro, “pior”. E por isso mesmo, melhor! Não, não é ufanismo tardio. Mas de certa maneira, entoamos odes ao escritor Lima Barreto ao enveredar por esta seara. Então para esmiuçar o assunto, vamos “por partes” como poderia ter dito o Ditador Frankenstein!

Tanto no cinema como nos quadrinhos, o autor pode ser o diretor, quem define os ângulos, o câmera, quem determina a estética, a visão artística e o que pretende transmitir ao público. Ou pode até não passar nada, tanto faz… Há arte nacional que bravamente sobrevive às pressões do mercado e do imperialismo cultural e há aquela arte (entre aspas), que mesmo sendo digna ou indigna, só sobrevive – e é conhecida – por intensa pressão cultural e financeira. Como muitos de minha geração, eu comprava quadrinhos na década de 1970 em bancas de jornais. Adquiria Batman e Asterix, mas também comprava as famosas revistas nacionais preto e brancas de terror, totalmente desenhadas e escritas por brasileiros. Eram melhores do que os congêneres estrangeiros? Sendo muito objetivo, a resposta seria não. E por quê? Pelas mesmas razões que comparei os quadrinhos ao cinema. Havia uma antiga teoria conspiratória que dizia que a ditadura militar nos anos 1970 e 1980 havia imposto a exibição de curtas nacionais com som e imagens ruins para reforçar a ideia de que o cinema nacional nunca teria jeito, nunca daria certo… Mas o que é ser “ruim”? Há um padrão de qualidade universalmente aceito? Quem o impôs? E para quê? Por quê? Para agradar as platéias mundiais…? A maior parte do público nacional consome quadrinhos nacionais com estética estrangeira e isso não é uma acusação, é um fato. Nem o linguajar é factível… O mesmo caso da música brasileira, totalmente submetida à pressões de mercado, e imposições estéticas globalizadas.

O DITADOR FRANKENSTEIN de Julio Shimamoto e COM A PALAVRA de Márcio Jr. (Editora MMARTE)

Podemos aqui, ficar horas debatendo essas questões, mas a resposta tem tudo a ver com a similaridade entre as duas expressões artísticas, principalmente quadrinhos e cinema. Por enquanto, não colocarei na roda nem literatura, artes plásticas e música…

Desde que me entendo por gente, meus amigos adolescentes nos anos 1970 e 1980 só conheciam filmes nacionais de pornochanchada. Ninguém havia visto nenhum filme da Atlântida, Cinédia e nem Cinema Novo. A garotada só gostava de filmes estrangeiros, basicamente estadunidenses. E cansei de ouvir: “Filme nacional tem som ruim!” (e tinha mesmo) e “Filme nacional é tudo mal filmado!” (Aí entraremos em debates existenciais sobre questões estéticas e câmera-na-mão-ideia-na-cabeça). Mas eu gostava de filme nacional mesmo assim! Mesmo contra 99% dos meus amigos… Essa reflexão me forneceu o insight (desculpem-me pela palavra em inglês…) de que o produto nacional não precisa ser igual, tecnicamente falando, ao produto estrangeiro, mas que é bom que seja brasileiro ou que busque incessantemente uma estética não-colonizada. Mas quem seria o fiel da balança para aceitar e apoiar essa estética “terceiro-mundista”? O público. Mas, como pedir apoio a quem não se interessa em apoiá-lo, se este mesmo público tem sido exposto à radiação gama há décadas? E assim é até hoje. Eu mesmo, só apoio e gosto de uma produção nacional não porque é feita no Brasil, mas porque tem uma linguagem própria, mesmo que canibalizada. Mas é preciso divulgação para que as pessoas tenham acesso aos produtos nacionais e divulgação significa investimento financeiro. Todos sabemos, ou teimamos em não lembrar, que os maiores vendedores de quadrinhos nos anos 1960 no Brasil foram artistas brasileiros (incluindo aí desenhistas que cá moravam egressos da Itália, Portugal e Argentina).

Essas reflexões recutucaram-me após ter recebido os dois lançamentos da editora MMARTE de Goiânia.

O DITADOR FRANKENSTEIN & COM A PALAVRA https://www.mmarteproducoes.com/

COM A PALAVRA é um compêndio escatológico P&B de 10 por 15 centímetros com 32 caricaturas sobre nossas mais (des)-i-lustres personalidades da política e da vida-pública. São artes diretas, “rabiscadas”, ejaculadas com profundo senso de pesar e humor, produzidas por uma das mais belas cabeças pensantes do país: seu Márcio, o multi-homem Paixão. A sensação que tive com esse trabalho, passível de ser carregado no bolso e ressacado nas ruas, quando se quiser, a cada momento que você se sentir uma agulha no palheiro, é o de comunhão e alívio de alma, já deveras atormentada por gente tão insignificante que ascendeu ao poder alicerçada por ressentidos, terraplanistas e nazistas. Retornei várias vezes às páginas já vistas para relembrar de como Márcio havia retratado essas personagens perversas, e (sor)ri mais e mais, quase que aliviado em saber que com suas lentes da verdade, Márcio comunga conosco a mesma paixão, a mesma hóstia. Como irmãos na fé, crentes que a arte salva e que nunca, jamais, deve ser censurada.

Precisa de legenda…?

A obra O DITADOR FRANKENSTEIN compila em formato 30 x 21 os trabalhos em P&B de terror e política lançados de 1960 a 1982 pelo mestre dos quadrinhos expressionistas Julio Shimamoto, exatamente quando o artesão completa 8 décadas de vida – em 2019. O prefácio escrito por Márcio Paixão localiza a obra de Shima (e roteiristas) no tempo-espaço e esmiúça várias questões como a detenção do artista pelos militares – por ter sido considerado subversivo. Reler essas histórias escritas sob a influência da Revolução Cubana, e da ditadura de 1964 – que alguns insistem em dizer que foi uma “dita-branda” ou que “nunca houve” – chegando a citações ao rei dos bicheiros cariocas (Anísio Abraão David) e às explosões de bancas de jornais – que vendiam publicações de esquerda -, nos faz perceber que 2019 parece uma deplorável viagem no tempo, o que por bem (re)atualiza os trabalhos de Shima, mas que também nos deixa em uma tremenda bola-dividida: serão esses quadrinhos mais do que um resgate? Serão a antevisão de uma nova ditadura? De uma já nascente censura…?

A conecção entre terror e política não é uma criação exclusivamente brasileira, tanto que o diretor George Romero disse sobre o seu filme A Noite dos Mortos Vivos de 1968 que os zumbis eram representações de nazistas, mas é claro que em terras tropicais a realidade dos Esquadrões da Morte (alicerçados por uma classe média hipócrita) e torturadores (que faziam sinal da cruz antes de suas torturas) foram mais do que representações e fantasias. Eram a verdadeira encarnação do mal, o que poria – e pôs – à escanteio todos os monstros fantasiosos transformando Drácula em um simples sugador… E como os quadrinhos nacionais eram muito populares nos anos 1960, eles influenciavam milhares de jovens a ver o governo como canalha e a lei como injusta.  Mas, aqui deixo uma outra análise em aberto, que pretendo esmiuçar em outro artigo: o de que a arte influencia, mas que ainda é incapaz de direcionar o “oprimido” à ação caso esta arte não seja massiva, através de que veículo for, enorme ou oculto (Exemplos: o seriado Anos Rebeldes da Globo feito para apear o presidente Collor do poder em 1992, os discípulos de Olavo de Carvalho e o Anonymous com suas máscaras de V de Vingança).

O DITADOR também nos faz retornar à questão do início desta análise: existe uma estética nacional? Com Shima pode se dizer que Sim. Todos a conhecem? Não. E Shima, com seus 80 anos, é o mais jovem e inovador dos artistas brasileiros, por ainda ser um dos mais ousados. Shima, o mais brasileiro dos samurais, o mais caipira dos moradores da cidade-grande é aquele que está mais distante de uma arte globalizada e comercial, palatável para o público infanto-juvenil e isso o torna um dos únicos e legítimos artesões deste ofício ingrato que é esfregar o Brasil real no rosto de um país que não se reconhece como mestiço e que teima em negar tanto a ditadura como as consequências da escravidão . A busca real ou artística, simbólica ou ativista, por uma arte nacional e por um país mais justo e miscigenado tem um nome escrito na história: e o seu nome é Shimamoto.

https://www.mmarteproducoes.com/ 

DOCUMENTÁRIOS SOBRE O ROCK SETENTISTA BRASILEIRO

“Som, Sol & Surf– Saquarema” de Hélio Pitanga e “Meu Tio e o Joelho de Porco” de Rafael Terpins (ambos lançados em 2018)

Por Fausto Mucin.

SAQUAREMA 1976

Acompanhei tudo sobre o famoso festival de Saquarema, cidade praiana no interior do Rio de Janeiro, pela resistente publicação “Rock, a História e a Glória” em 1976. Eu tinha 15 anos na época, e nem um centavo pra ir a lugar nenhum. O nosso movimento setentista tinha uma rainha (Rita Lee) e, que eu saiba, dois músicos deficientes físicos: o baterista Rolando Castello Júnior (do Made nos anos 1970) da Patrulha do Espaço e o vocalista do Bixo da Seda, Fughetti Luz, todos do primeiro escalão. Simbólico e maravilhoso. Através da revista impressa, soube do caos ocorrido nesse grande encontro de feras e imaginava os motivos, mas no documentário “Som, Sol & Surf– Saquarema”o jornalista-produtor Nelson Motta – e outros envolvidos – falam com total clareza sobre os bastidores do festival. Pena que quase tudo no Brasil peque por falta de planejamento e estrutura, mas, como o próprio filme explicita, temos arte, música e resistência, principalmente naquela época onde todos parecíamos um só corpo, sem divisões.

No documentário surgem o Made in Brazil em forma, talvez em sua melhor forma; Raul Seixas brilhando como sempre, – se ele só arrotasse já brilharia por si -; Bixo da Seda hipnotizante – há algo mágico ali que repercute até hoje -; Ângela Rorô e Rita Lee e Tutti Frutti – talvez em sua melhor forma também… Aliás, entendo os percalços da produção e a pressão da ditadura, mas fiquei assustado com a ingenuidade da produção em contar com alguns participantes inexperientes, filmar em 16 milímetros, e gravar em fitas de 30 minutos… Se rolassem mesmo, o disco ao vivo e o filme nos anos 1970 teria sido praticamente um milagre. Muito bom ter feito esta viagem ao tempo e constatar tudo isso.

Nota negativa para o “Bobão” (para bom entendedor, uma letra trocada basta) que mesmo presente ao festival, disse que não viu show algum, – e que nem sabia o motivo de estar lá. Se o rock errou, foi principalmente por tê-lo como depoente…

“A coisa mais anti-rock’n’roll que existe é uma ditadura militar.”

A reflexão acima é de Nelson Motta. Sempre gostei dele apesar de ser muito global, mas assumo que ele foi influente em minha formação, essencial mesmo, mas acho, apenas acho que desta vez, em 2019, ele pode estar enganado. E por quê? Artística e musicalmente, o negócio piorou muito de Saquarema pra cá. Se hoje temos planejamento e estrutura melhores, uma parte significativa dos músicos do estilo ainda não entendeu nada sobre o que é ser um músico de rock, e o que é a ditadura…

Ou será que fui eu que envelheci com meus sonhos?

Vontade de agradecer pessoalmente a quem filmou o festival – Gilberto Loureiro falecido em 2013 -, ao restaurador Chico Moreira – falecido em 2016 – e ao diretor Hélio Pitanga.

JOELHO DE PORCO

O documentário, como o título adianta, foi dirigido pelo sobrinho de Tico Terpins, baixista e fundador da banda Joelho de Porco. Fala-se sobre o Joelho, mas principalmente sobre o tio. Mesmo como filme-familiar, muito me interessou o que fez de Tico Terpins ser um artista. Judeu, rico, e um verdadeiro espírito de porco literal (he, he). O baixista escondia sardinha no carro dos outros para feder, colocava revistas pornôs nas bolsas das socialites (que seja) e zoava o público e os apresentadores de TV. Mas assumo que tudo isso me soou um pouco como cuspir pra cima, estourar as pontes, e fechar as portas por onde se passa… Na fase da primeira mulher, Tico conseguiu se consolidar, e a banda cresceu, frutificou, mas já na segunda esposa, me pareceu que perdeu-se o motivo de viver… Algumas mulheres fazem de você uma outra pessoa – ou deixa-se fazer… E quando não se é mais você, quando se perde a essência, pode ser o fim da linha. Não sei se foi isso o que ocorreu, mas assim me pareceu.

O vocalista Próspero Albanese, com quem hoje tenho um relacionamento saudável, foi quem saiu da banda. Nunca imaginei que fosse isso, uma pena… No retorno ao Joelho, como Albanese mesmo disse, já era outra coisa… E sobre o vocalista ítalo-portenho Billy Bond é melhor não dizer nada… Uma pena que ele não tenha contribuído com depoimentos e nem cedido direitos de imagem. Soa-me ressentimento, e isso é condenável, mas pelo depoimento de um produtor – ou empresário – do Joelho, foi Bond quem pagou pra entrar na banda!

Este é um documentário que todos que amam o rock brasileiro devem assistir. Muitos depoimentos interessantes, imagens inéditas e filmagens antigas.

“Rafa, sabe esta pilha alcalina? Os Terpins são daquelas amarelinhas bem vagabundas.”

SÉRIES, COLONIZAÇÃO, CONSERVADORISMO, CRIATIVIDADE!

Tenho assistido a um canal de TV aberta de São Paulo que exibe as mesmas séries estadunidenses antigas que eu via quando criança nas décadas de 1960 e 1970. À primeira vista, achei meio exótico rever material tão antigo sem alguma motivação “valorosa”, mas ao ver um ou outro episódio, sem me cobrar muito, a curiosidade tornou-se hábito. Logo percebi que não se tratava de nostalgia, mas de um processo de autoanálise. Acredito que muitas de nossas escolhas atuais são resultado de um processo inconsciente de percepção do mundo até a pré adolescência, e através do material antigo reencontrei pistas sobre a minha percepção do mundo atual, e pude me conhecer melhor. O que de praxe, me faria tender para o lado crítico (rever uma série de caubóis é colonização cultural), me proporcionou bem mais. Rever seriados antigos me permitiu reanalisar a própria vida, me entender como pessoa, refletir sobre a sociedade e analisar minhas próprias escolhas através das décadas.

Waltons

Há dois seriados que assisto hoje com os quais eu não tinha a menor paciência na década de 1970: Waltons e Os Pioneiros. Quando criança, eu nem sabia o que havia sido a Grande Depressão americana do norte (de 1929) e nem entendia o que era ralar para sobreviver – já que minha mãe lavava minhas roupas. Entendia os roteiros como podia. E mesmo assim aprendi muita coisa (da mesma forma como a série Túnel do Tempo me estimulou a estudar história). Contudo e apesar de, ambas as séries que mais assisto hoje falam sobre famílias tradicionais e rurais sem grandes questões existenciais. Nos Waltons, John-Boy, o adolescente do interior que sonha em ser escritor, é o pilar da história. A sua família corta madeira todos os dias, para que os filhos possam ter um futuro melhor, em um mundo economicamente desestruturado pós a Grande Depressão de 1929. E querer ser um escritor é uma espécie de luxo que quem tem fome não pode sequer ousar em ter… E nos Pioneiros, uma família luta para se estabelecer em uma pequena cidade-vila no final do século XIX em Minnesota. Ambas as séries são românticas e exaltam a luta do “homem” contra as dificuldades e da importância da família como pilar da sociedade. Há elementos idealizados que também transmitem mensagens idealizadas – que se todos trabalharem duro, Deus ou a meritocracia os poupará do fogo da danação. E creio que a vida não é assim, tão preto e branco. Porque negros obviamente tinham menos oportunidades, assim como as mulheres, que apesar de fortes, são submissas àquela época e sociedade. Tive uma reflexão semelhante nesta semana, ao assistir a um episódio de A Feiticeira em que o marido chegava em casa, em 1968, tempos de revolução cultural, e reclamava: “Cadê a minha comida?”. Lembrei do meu próprio pai falando com minha mãe na década de 1990!

Os Pioneiros

Estudando um pouco as séries, Waltons e os Pioneiros, me dei conta da época de produção, por volta de 1972, tempos de campanha presidencial (só nos EUA mesmo, porque aqui era ditadura…). E é aí que se faz uma singela ligação com os tempos atuais. O candidato democrata, McGovern, era anti-guerra (Vietnã), mas perdeu para Nixon, que dizia que o democrata era o candidato dos três As: Ácido, Anistia e Aborto! Parece tão atual, não é? Não te faz recordar de da mamadeira? Do pastor que ganhou a prefeitura do Rio derrotando o candidato “maconheiro”?

“Faz arminha que passa!”

E quanto ao escândalo de Watergate em 1974, sobre um presidente “honesto” que foi pego em atos de suborno, espionagem e corrupção…?

O que evoluiu de 1972 até hoje? A sociedade é de fato conservadora ou simplesmente hipócrita?

E pensar sobre isso, em nossos tempos políticos conturbados (para dizer o mínimo) é bastante curioso.

Sempre sonhei em ver boas produções de séries nacionais na TV (e hoje, na internet há algumas, mas aquém do que eu imagino ser o ideal) que pudessem me cativar ao ponto de eu poder deixar de fazer algo por uma hora para me deliciar com um produto que pudesse sentir como meu, como parte de mim, assim como eu me sentia com a série Arquivo-X que vi de cabo a rabo. E revi.

Escrava branca

Mas, quando falo em produções nacionais, me refiro a trabalhos com linguagem própria, cultura e pensar locais. E que não precisem ser colonizadas, globalizadas e nem esteriotipadas. Reprises do mundo-cão… Escrava Isaura, guerra de tráfico na favela, e corrupção na política podem ser reescritas com muito mais criatividade e sem lacração.  E principalmente, produtos que façam o Brasil encontrar um caminho próprio. Em português, sem a necessidade de ser aceito no exterior. Sei que há muitas séries nacionais na Globo e na TV fechada (Justiça, Copa Hotel, 3 Teresas, 3%, Irmandade, O Escolhido, ), mas eu não tenho – ainda – o interesse em assistir. Meu momento é de rever o que já vi e repensar.

Mauá

Mas tento acompanhar o que posso e quando posso. Uma de minhas paixões é história do Brasil. Por causa disso, assisti no History as séries Gigantes do Brasil e Mauá. Há aspectos positivos, mas o formato, o roteiro e mais algumas coisas me incomodaram. Sem contar no discurso liberal e de meritocracia… Além do History ser um canal que se perdeu nas últimas décadas com realities e Ufos nazistas. Isso sem ter que lembrar da série brasileira Detetives da História exibida em 2010-2013 no History, que descobri não ser apresentada por historiadores, mas por atores. Senti-me ludibriado…

Muitos diriam que em um mundo globalizado seria impossível criar um produto brasileiro e criativo. E que isso não daria likes ou audiência… Pode ser, mas a internet, pelo menos a princípio surgiu para fortalecer a ideia de nichos, tanto que as eleições hoje são ganhas através de nichos, fake news, e a exploração das profundezas mais obscuras da alma humana. Por isso, há o vilão que todos amam odiar sem se darem conta que em nós também habita o vilão escancarado ou hipócrita…

Hoje em 2019 (quase 2020) tenho sérios problemas em assistir a séries estrangeiras. Simplesmente eu não consigo. Minha última foi LOST em 2010. Olho para um estadunidense, ou qualquer outro gringo e não me sinto representado. São temas que não me interessam. Prefiro filmes mudos que assisto quase todos os dias. Revejo os Gordo e Magro quase que diariamente. E em termos de Brasil recorro a reedições – e revisões – de programas e novelas no YouTube que realmente revejo, analiso e estudo. 

Mandacaru

Como que por curiosidade, listo uma pequena lista do que revi (de TV nacional) e que me estimula a escrever livros e quadrinhos em busca desse “meu” e “nosso” Brasil, idealizado ou não, tão bom ou não… Uma lista de filmes nacionais dos anos 1930 a 2019 fica para nova matéria.

Kananga do Japão, Mandacaru, Corpo Santo, Dancin´Days, O Grito, O Bem-Amado, Saramandaia, Os Ossos do Barão, Anarquistas graças a Deus, Grande Sertão: Veredas, Tenda dos Milagres, Anos Rebeldes, Anos Dourados, e Agosto, entre outras.